.nova pele de palavras.
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Escrito por paulo amoreira às 09h22
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.desconcertos.
.não estavam as horas atentas à vontade permanente. daí que passaram-se séculos sem que o furor entre as costelas encontrasse calma. nem mesmo agora - quando penso estar velho mas sei infante eterno esse desejo comedor de juízo.
.desconcerta saber ser delicadeza o que nos agarra as incertezas. isso de poder varar rochas mas não poder sossegar. não poder dizer "chega" nem "nunca mais" nem "me deixa". motor furioso moendo a própria força com o despetalar das fragilidades.
.nunca quis estar tão alto. no cimo agudo desse sinto. cume arredio. solitário tanto. só invejava de leve o rubor latente dos amores desmedidos. olha lá no que deu:
.sou inteiro do além-eu.
Escrito por paulo amoreira às 16h16
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.à beira.
.como dias suspensos sussurrando momentos.
.se movem ainda páginas não escritas. fomes não cumpridas. horas vadias de memorizar maciez e contornos. se movem sob a pele líquidos secantes. e toda sorte de poeira dourada e perfume de agora.
.como posso dizer? correm risos e vendavais entre ossos. mareiam cachos. tumultuam cílios. desvenciliam-se tramas tecedoras de instante. tudo gira brincante. tudo sôa risada infante. tudo aquece e pousa docemente. ar.
.todo vez que meu olho a vê é sempre um completo é súbito encantamento.
.onde está ela agora?
.vôa. levita. paira.
.minha alegria me visita com vontade de beijar.
Escrito por paulo amoreira às 08h33
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.antes do fim.
.juntou vestígios. arrumou vertigens desordenadas que pairavam no olhar. catou espantos nos cantos da casa (teve medo de suas máscaras). adiou desenganos. trancou o silêncio no cofre do peito. mediu pela última vez a densidade da alegria contida. tentou espalhar pela noite todas os desejos morenos - a maioria permaneceu ardendo. alguns esfacelaram-se nos faróis. outros crinaram vento e presságio. o maior permaneceu-lhe entre dentes. disseminou o que restou de prudência nas pedras da soleira (que a cuspiram fora tão logo deu-lhes as costas). não foi ao circo. sentou no seu passo. ruminou estranhezas. esqueceu música e dança. blocou costelas no tronco hermético. calou cachos. pestanas. têmporas. nervos.
.deixou-se partir.
Escrito por paulo amoreira às 07h38
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.turbulências.
.ando abrindo portas. a maioria nem sabia que estavam lá. num meio de texto me vejo tocando trinco. girando chave. adentrando.
.[mentira. nem sempre entro. às vezes fico na soleira. a cara acesa com medo de mergulhar no escuro do aposento].
.entrar significa entregar-se ao súbito alheiamento. à deriva bendita que pinica epifanias. entrar também significa desembaçar espelhos. onde um outro devolve assombro e olhar. às vezes há conversa - ou tentativa de conversa - com esse outro. esfacelamento de muros e poda de espinhais. mas na maioria dos confrontos/encontros é um mútuo mudo espanto.
.queria poder levar alguém comigo quando passasse pela próxima porta. alguém que não se importasse de me ver extremo e abismo. quem pudesse me segurar a mão e dizer baixinho "sem pressa. já saberemos". ou que estivesse apenas do lado e olhasse como quem diz "também estou vendo".
.tenho aberto portas pesadas. paquidérmicas. emperdenidas. portas sufoco sem paz. tenho aberto portas transparentes e transpassáveis. vaporosas. inefáveis. portas fuga de esquecimento. e tenho aberto portas nebulosas. opacas. imperscrutáveis. portas silêncios nervais.
.agora mesmo - enquanto te digo isso - estou passando por uma. entrando fundo no mundo de penumbra que um arco esmaecido guardava e cumpria. preciso de ajuda aqui. não consigo enxergar.
.me empresta teu olhar?.
Escrito por paulo amoreira às 14h37
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.de respiros e afogamentos.
.estive aqui enquanto sonhava. aqui onde sou palavra e onde tu me lê (em ruidoso silêncio). debatia-me nas ondas de agora. sem ar. sem ar. sem ar. e era tu meu fôlego. e em ti respirei desesperadamente - para que não me morressem as horas vivas.
.depois, permaneci náufrago de ti até a manhã - muda e confidente - me resgatar desperto e salvo.
Escrito por paulo amoreira às 11h43
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.colhendo vestígios.
.voltar como homicida - dando voltas em torno das palavras cometidas. fingindo-se outro. sabendo-se rastros e conseqüências. como lobo diante de rebanho. presas abertas para as idéias vividas. fome do que antes. vontade de agora.
.gosto de renascer entre tormentas. quando a calmaria do caos dos dias insinua trovoada eminente.
.gosto de fazer certas coisas em segredo. crimes de se confessar entre silêncios de mantas habitadas.
.gosto de poder abrir portas como quem cospe horizontes.
Escrito por paulo amoreira às 15h02
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.pequenas evidências.
.vestígios. música imagem rabisco em naco de papel cheiro. esses mundos convocados de suas sombras secretas a nos marcarem as pernas com chumbo e estardalhaço de tombo. como a embriaguês das letras que chegam sem pedir licença. e se toma da caneta tinteiro e se comete uns versos bêbados e se coloca pra baby, baby, baby na voz da aretha (em loop). promessas sem beijos. viagens sem vôos. rumos perdidos em becos escuros que se abrem por dentro. o sol ainda ameaça lá fora (mas não vai entrar). dentro é sempre o mesmo café fumacento. voz de diva negra derramando desilusões castanhas num foco aceso a meio palco. palavras de outras datas. tempos de esperas inúteis e pequenos brilhos acesos com riso alheio. palavras de entornar alma com coisas de além e faíscas. saudades sem par. demoras caladas de morrer devagar.
.palavras de nunca.
Escrito por paulo amoreira às 14h35
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.tristeza vaporosa.
.disse o nome com voz quente de amiga há muito não vista. explicou que escrevia sobre como a chuva afetava as pessoas e seus hábitos. queria saber das coisas minhas nessa estação chuvosa. das coisas que faço ou deixo de fazer. contei das lembranças de despertar em madrugadas frias, diante do apelo festivo da mãe sertaneja, e correr para as bicas. os escuros e as águas. a molecagem dos corpos e a falta de fôlego sob os fluxos jorrantes. não se fica impune a 9 meses de suspenso em líquidos. contei da fuga em meio as festas para tomar banho de chuva no meio da rua. sozinho e aberto como um abismo inverso. mas não deu tempo de contar do amor adolescente feito de dolências à beira rio, enquanto caía fina chuva com sol. nem da vontade de, chegada a hora de deixar esse mundo, calar a vida em descampo diante de fulmino de raio de tempestade. queria a amiga saber de agora, das coisas que faço com chuva. "melancolia?", perguntara. "não, tristeza vaporosa", explico. coisa que não dá pra agarrar com lágrima nem cismo. escrevo sempre à mão quando chove de madrugada. tinta e rítmo adequados para o tempo suspenso da chuva. líquido de tinta para líquido de gota. queria mais a amiga. uma foto talvez. chegou acompanhada de fotógrafo minutos depois. escolhido o canto, fizeram as imagens que queriam. partiram há algumas horas. caminhei na chuva para almoçar. sem pressa. todos pareciam correr para a direção contrária. aflitos para escapar das águas. caminhei sem pressa. tudo por dentro transbordando sentidos. gesto e gestação. mar e chuva. passos de névoa. umidades únicas.
Escrito por paulo amoreira às 13h42
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.dos dias sem sol.
.havia carne nas palavras. sangue e nervos. havia sabor de coisa maior que peso morto. uma chuva de coisas abridoras de luzes interiores. ou músicas novas em cada frase. suspiros de anjos em orgasmos de nuvem. quando sentava para escrever era como se todas as coisas fizessem uma curva em direção às letras cometidas. até a dor que o perseguia por todo o tempo de sua existência. essa corrente que lhe prende em rochas e petrifica sonhos de céu aberto. tudo quanto lhe faz ser quem é causa desconforto. dizer o que diz é sempre um tipo de afronta. ainda que nem alvo tenha sido o que fez nascer o dito. alguém em algum canto sempre há de alertar: "cuidado! não podes sentir como sentes nem ser como és. não se pode voar no mundo das pedras". ainda assim perdia-se nas letras. talvez nem seja muito mais do que aquilo que cometa em versos proibidos ou frases contraditórias. morto talvez para essa vida de clichês medonhos onde é o passar dos anos que diz do que se viveu e não o sabor do momento. hoje agora nesse átimo lúbrico e cansado é um tanto de decepção que amarga entre os lábios. para onde mira se o alvo não está mais lá?. quisera ter silêncio de dias. sombras de carvalhos entre os olhos escuros de tanto enxergar. quisera deitar entre os calores do dia e dizer poesias de água fresca. quisera não sentir o nó que ata o choro afogado no peito. dor de não saber voltar. não querer ser outro. de ter apenas esse tanto de fúria comendo por dentro e canções de gritos lascivos na memória dos ossos. cada vez mais só. caminha por uma linha invisível e paira entre a vontade de morder o mundo e o sono dos esquecidos. fumaria uma cigarrilha se coubesse na fumaça expelida a vida que não quer mais para si.
Escrito por paulo amoreira às 14h27
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.do que nos tece em palavras e calores pardos.
.ainda sobre os ombros uma manta de palavras vividas como carne viva sobre lábio.
.perder-se das coisas todas. alcançar quem faz estrela no abraço. fulminar de risos achados os ocultos das tristezas indiferentes. caminhar por entre as gentes em estupefato embaraço. quanto mais se tenta escapar das teias mais se entranha nelas. quis abrir a janela de dizer dia. dizer alegria de pássaro em céu sem nuvem. dizer menino entre árvores e frutos e entre novas sensações que menina cavou no peito depois de um dito de manhã assinalada.
.vontade de tramar dedos e sentimentos com outras mãos e abismos. de silêncios ou estágios de loucura. de mares abertos para naus desgovernadas. veias trilhas. veias rimas de cachos querentes. misturar cabeleiras e vejos na paz dormente das pedras ruidosas dos seixos andarilhos.
.estou aqui em pedaços de aí.
Escrito por paulo amoreira às 10h53
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.todo tudo que há dentro.
.ando ainda mais tonto de cada coisa. absorto. desabando pelas ruas com passo rúnico. ando cheio de promessas loucas na carne macia dos lábios grossos. ando pálido de vertigens muitas. estágio novo em pirâmide turva. tatuagem de assombros. ando quase sem ter por isso tento. longe de tudo quanto me veio de um outro modo senão por sonhos. nem sei mais se acordo pela manhã ou apenas caminho sonâmbulo, abrindo portas por onde passo, tomando em tragos uma lucidez onírica que me foge dos braços como pombas turmalinas. voam em azuis de agonias límpidas como cálices de cristal vazio. só quero saber do que se diga sem disso se perceber.
.me diga.
Escrito por paulo amoreira às 13h40
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.uma dor que me queira.
.os pedaços alecrim do que me deixou a fada azulejam quase sem mim. quase. quase sem o peso de saber estar aqui e isso ser pouco e tudo. onde a pele descançou possíveis fiz meu pacto de vontades todas cumpríveis. e era bella essa seda estampada de versos chineses. era plena de dizeres e quereres de um tom amanhecido. a fada me tocou na alma. onde ainda ninguém havia tocado. e meus dias permanecem sonolentos. mistura de momentos de real e devaneio. não sei se toco o solo. nem sei da minha tristeza conhecida e amistosa. minha tristeza partiu em exílio de lírio. só ficou essa alegria tão nova. nem sei ainda como conversar com ela.
.ela, a alegria, senta no meu colo e faz carrossel nos cachos de meu cabelo. beija os lábios grossos como se não só alegria fosse. beija como se fosse desejo. sinto o peso do encaixe das ancas da alegria sentada sobre meu sexo. estou gostando desse novo peso. me faz flutuar.
.a alegria quer me namorar.
.não posso. e não quero. detê-la.
Escrito por paulo amoreira às 10h25
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.êxtase tremor e gozo: chuva.
.estar ainda trêmulo e nu. no corpo a chuva recém colhida por cada canto da pele. tremer de frio e êxtase. antes, abrir os braços na noite fria e olhar para o céu escuro e absurdo. como o que navega dentro do abismo aberto dentro do peito. fechar os olhos e sentir cada gota que beija o arrepio que vem sem trégua. arriscar-se sob a bica da garagem. nudez exposta e complacente. nascer menino explodindo no peito.
.voltei aqui, eu sei. me recebe a chuva e os raios e trovões que me adotaram há muito como filho pródigo. sou dos que amam tempestades. sou dos que não morrem jamais.
Escrito por paulo amoreira às 02h15
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.sobre as coisas que não tem nome e nos matam devagar.
.ar. arfa o peito esquecido de não saber. cheio de ar por dentro. vazios. espaços. cheio de nadas dolorosos. rastros de presença. encaixes sem peça. não há palavra para o que não há mais. sombra de luz que paira sedenta de contorno e some na névoa. onde se está quando não se está?. deitar a mão sobre o rosto. sentir um calor outro. novo?. antigo. bom?. neutro. estar como espelho coberto por capa de veludo vermelho. poeira de olhar no ouro silêncio. respirar. respirar. respirar.
Escrito por paulo amoreira às 16h05
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